O comportamento do preço da carne nas últimas semanas pode ser tratado como uma pequena amostra dos efeitos de políticas populistas
Por Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária
As exportações de carne bovina recuaram cerca de 25% em relação a junho, considerando os números preliminares de agosto. No mesmo período, o preço da carne bovina ao consumidor aumentou 2,7%, atingindo, em agosto, o maior valor real em 20 anos, desde o início da série histórica.
O comportamento evidencia, de forma didática, o risco que as medidas populistas trazem à população, como é o caso de se criar barreiras às exportações com o objetivo de controlar a inflação no mercado interno.
O assunto é importante pela reincidência de propostas que circulam nos Poderes Executivo e Legislativo pleiteando políticas que atuem nesse sentido. Setores da Imprensa acabam tratando do tema com certa simpatia, quando abordam a questão sem o cuidado que uma boa análise exige.
Entender a complexidade por trás dos efeitos é contraintuitivo. Exige uma compreensão um pouco mais sofisticada das leis de mercado e do comportamento dos setores produtivos diante de estímulos ou desestímulos.

Entre julho e agosto, a redução das vendas externas impactou negativamente os resultados dos frigoríficos. Para manter o resultado financeiro, a indústria precisou se adaptar à nova realidade de preços, diante da menor parcela da renda que era garantida pelas exportações.
Esse ajuste é feito através da produção. A quantidade de animais abatidos – e consequentemente a produção de carne – vai se reduzindo, até que os preços compensem a operação.
Em agosto, tanto os preços dos cortes desossados recebidos pelos frigoríficos quanto os preços ao consumidor atingiram os maiores patamares, em valores reais corrigidos pelo IGP-DI, desde janeiro de 2007, início da série histórica analisada pela Athenagro. A metodologia considera o preço médio dos cortes na gôndola, ponderado pela participação de cada corte na carcaça. Nem o boi gordo nem as carcaças bovinas, porém, alcançaram os níveis mais elevados do período.
Para explicar melhor o comportamento envolvendo as exportações, vale citar o exemplo dos Estados Unidos, cuja composição das compras foi muito analisada a partir das políticas tarifárias implementadas pelo governo Trump.
No primeiro semestre de 2026, as exportações para os Estados Unidos alcançaram, em média, 34,15 mil toneladas por mês, das quais aproximadamente 29 mil toneladas corresponderam a cortes do dianteiro e outras 5,1 mil toneladas aos demais cortes.
Considerando a participação dos cortes desossados na carcaça e o volume dos demais cortes exportados, cada quilograma de carne enviado aos Estados Unidos gera outros 1,3 kg, que permanecem no mercado interno ou são destinados a outros países.
Portanto, trata-se de uma ilusão acreditar que a redução das exportações acabe gerando uma oferta proporcional no mercado interno. O impacto da queda nas exportações afetará negativamente a população brasileira. Não se trata de discutir “se” o impacto negativo irá acontecer, mas sim “quando”.
Se houvesse elevada disponibilidade de animais para abate, o comportamento poderia ser inicialmente inverso, com a pressão concentrada sobre o produtor. Os preços recuariam drasticamente e haveria uma percepção de “resultado positivo”. No entanto, esse resultado seria insustentável e tenderia a provocar o efeito inverso nos meses seguintes.
Com frequência, temos abordado os impactos negativos da política de retenciones, implementada na Argentina há alguns anos. Em um primeiro momento, houve aumento na disponibilidade de carne bovina. Mas, logo em seguida, essa disponibilidade foi caindo da faixa dos 62 kg de carne bovina por habitante para 44 kg por habitante. A recuperação da disponibilidade per capita ocorre em um ritmo muito mais lento do que sua redução.
A experiência dos argentinos mostra que os efeitos da “destruição” do dinamismo de um setor produtivo são mais duradouros. É mais fácil destruir do que construir.
No Brasil, com as enormes particularidades e variabilidade dos sistemas produtivos, poderíamos esperar efeitos negativos ainda maiores, caso uma política tão desastrosa quanto essa fosse implementada.
O assunto é de difícil compreensão. Ainda mais em um país em que parte da sociedade acredita que a alteração da escala de trabalho, por força da lei, traga mais benefícios do que prejuízos ao trabalhador comum.
Boas intenções, por mais meritosas que sejam, não se traduzem em resultados. Resultados são garantidos com conhecimento técnico e econômico. O comportamento do preço da carne nas últimas semanas pode ser tratado como uma pequena amostra dos efeitos de políticas populistas. Os exemplos são inúmeros e estão disponíveis.
Recomendação de artigos e entrevistas sobre o tema
Alternativas para tornar a carne mais acessível ao consumidor, 16/09/2022 – https://athenagro.com.br/blog/alternativas-para-tornar-a-carne-mais-acessivel-ao-consumidor/
Limitar exportações de carne implicará em cenário difícil ao consumidor, 22/09/2022 – https://athenagro.com.br/blog/limitar-exportacoes-de-carne-implicara-em-cenario-dificil-ao-consumidor/
Interferir nas exportações para administrar preços tende a trazer resultados contrários ao que se espera, 12/02/2026 – https://athenagro.com.br/blog/interferir-nas-exportacoes-para-administrar-precos-tende-a-trazer-resultados-contrarios-ao-que-se-espera/
