Por Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária
Comparar o uso de agrotóxicos no Brasil com o de outros países é um erro. Mesmo assim, é comum ouvir que por aqui ainda são utilizados produtos proibidos nos Estados Unidos e na Comunidade Europeia. As razões que explicam essa realidade expõem também uma grande contradição entre os ambientalistas. Ainda que denunciem o uso de moléculas antigas, são os primeiros a se posicionar contra as medidas que possibilitariam modernizá-las.
Sob o argumento de que a disponibilidade de novas formulações aumentaria o uso generalizado, pressionam a opinião pública contra a flexibilização de novos registros. E o efeito acaba sendo o inverso.
Para que a inovação avance, é fundamental incentivar a pesquisa aplicada. No Brasil, o caminho entre a descoberta de uma nova molécula e sua chegada ao mercado pode levar de 14 a 20 anos, o que desestimula os investimentos. Assim, acaba sendo mais vantajoso recorrer ao registro de moléculas antigas que já perderam a patente — e essa é uma das principais razões pelas quais o país ainda utiliza substâncias abandonadas em outras partes do mundo.
Se houver maior estímulo para que empresas lancem produtos mais modernos, a própria competição pelo mercado criará soluções mais eficientes, reduzindo as doses utilizadas e possibilitando melhor qualidade dos produtos disponíveis. Isso já vem acontecendo, ainda que de forma lenta.
Para que a colheita ocorra conforme o esperado, os cultivares precisam ser protegidos. Do ponto de vista técnico, o termo apropriado para agrotóxico é agroquímico, pesticida ou defensivo agrícola. Se fôssemos seguir a mesma lógica, o termo para repelente de insetos, vendido em farmácia, deveria ser ‘humanotóxico’ – mas, claro, não é assim que funciona.
Nos primórdios das primeiras gerações de defensivos agrícolas, os produtos eram de alta toxicidade. No final do século XX, a geração de moléculas dominantes apresentava melhor seletividade, reduzindo significativamente os riscos inerentes à aplicação e aos possíveis impactos ambientais. Finalmente, nos últimos 20 anos têm prevalecido produtos de alta precisão e baixo impacto, além do aumento de soluções biológicas em substituição aos produtos químicos. O Brasil está na vanguarda dos insumos biológicos.
Até mesmo em setores como o de pastagens, em que a demanda não imprime um bom ritmo de inovações, notam-se avanços. A dose atual de um produto moderno, líder de mercado, para controlar um determinado grupo de plantas indesejáveis, é de 450 gramas de ingrediente ativo por hectare, em média. Quando o produto foi lançado no final da década de 1960, o mesmo controle, com praticamente a mesma composição química, demandava dose duas vezes maior. Se o ambiente favorecesse o investimento em novas soluções, o mercado já poderia contar com doses viáveis entre 50% e 80% menores do que as atuais.
No clima tropical, o uso desses produtos é ainda mais necessário do que em países de clima temperado. Isso ocorre porque o ambiente é muito mais dinâmico em termos de variabilidade de plantas invasoras, insetos e microrganismos que podem frustrar a produção. Justamente pela dificuldade em produzir nesse ambiente é que, além do Brasil, não há outro país que tenha dominado a produção nos trópicos, de forma eficiente e produtiva.
No Brasil, esse dinamismo que ameaça os cultivares foi convertido em vantagem, através da criatividade e resiliência que orientou a ciência e os profissionais do campo. O que era barreira impeditiva foi adaptado para que, na mesma área, fosse possível produzir duas ou até três safras. Defensivos e fertilizantes minerais fazem parte da matriz tecnológica que permitiu construir o modelo de produção mais sustentável do planeta.
E há ainda outro ponto a ser considerado nessa discussão. Há quase 40 anos, a produção brasileira tem vivido uma revolução interminável em direção a práticas cada vez mais conservacionistas. Dois dos principais exemplos dessa revolução, em escala, é adoção do plantio direto, técnica em que o solo deixa de ser revolvido a cada nova semeadura, e o uso de integração entre lavoura e pecuária. Em ambos os casos, o uso de defensivos foi essencial para viabilizar práticas mais conservacionistas que, inclusive, possibilitam grandes reduções no consumo de combustíveis fósseis.
Ainda assim, há muito o que melhorar. Mesmo com o modelo de produção já bem avançado em práticas regenerativas, a média nacional ainda está longe das fazendas de ponta, com modelos de produção ainda mais produtivos e preservacionistas.
O caminho mais curto para que soluções biológicas sejam cada vez mais presentes, e viáveis, é estimular a competição entre as indústrias de defensivos. E hoje o maior obstáculo a esses avanços vem justamente daqueles que mais cobram para que sejam implementados, ao abordarem o tema de forma descontextualizada e contribuindo para um ambiente negocial adverso às inovações.
Não basta imaginar o mundo ideal para que a sociedade se desenvolva de forma sustentável. O importante é criar ações para que possamos construir esse mundo desejado. É preciso coerência.
Observação: O artigo Agroquímicos e incoerência do ambientalismo foi publicado no dia 06/10/2025 em “Espaço Aberto”, página A4, de O Estado de São Paulo.

