Agronegócio e pequenas unidades de produção: um conflito que nunca existiu

Por Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.

Maurício Bauer, da The Moore Foundation, escreveu um ótimo texto (na íntegra ao final) no Linkedin, citando meu artigo publicado no AgFeed: Pecuária de corte em alta: R$987 bilhões movimentados em 2024 .

No entanto, tomei a liberdade de comentar um ponto sobre o texto, no trecho em que ele questiona a diferença entre a realidade dos quilombolas e da pecuária mais desenvolvida, que vem se destacando: “De um lado, comunidades tradicionais que resistem com pouco apoio; de outro, uma cadeia agroindustrial com musculatura econômica. Mas será que esses mundos precisam estar em conflito?”

Esse conflito nunca existiu.

Colocar as duas realidades em dimensões opostas é fruto de uma narrativa criada para defender uma tese que nunca orbitou o ambiente técnico e produtivo.  Entre os diversos players do agro moderno e dinâmico, que incluem produtores, pesquisadores, técnicos, professores, profissionais das indústrias de insumos, serviços e transformação sempre esteve em pauta a preocupação em incluir os produtores com maior dificuldade financeira.

Essa preocupação está presente no próprio texto citado: “Chama a atenção o contingente de mais de 1 milhão de pessoas dedicadas à atividade de subsistência dentro da pecuária. Trata-se de um dos maiores desafios relacionados ao setor produtivo no que diz respeito a questões sociais e ambientais.

Outro ponto é em relação à abrangência do movimento de R$987 bilhões em 2024. Essa análise inclui toda a pecuária e não apenas aquela parcela mais dinâmica. Os vulneráveis também fazem parte da pecuária titânica, conforme grafado no artigo de Bauer.

Grande parte das informações, que são insumos para o estudo, foram originadas a partir do Rally da Pecuária, projeto conduzido pela Athenagro. Desde 2012, temos dedicado um grande destaque à produção em pequena escala e às dificuldades dos produtores mais vulneráveis se adaptarem.

A última expedição a campo, por exemplo, focou 70% das visitas em propriedades pequenas, que representam a maior parte do contingente de produtores do Brasil. O objetivo de direcionar o foco a esse público foi justamente levantar informações sobre a realidade daqueles que estão sendo esquecidos – ou ignorados – na elaboração de políticas que impactam a pecuária.

O maior exemplo atual dessas políticas é a questão do monitoramento e controle dos fornecedores indiretos, o que tende a acelerar o processo de exclusão ou dificultar ainda mais a inserção dos menores produtores em um modelo lucrativo e conservacionista de produção.

A inclusão, portanto, é uma preocupação real do setor produtivo e tem se materializado através de ações dos diversos players que investem em parcerias, disponibilização de tecnologias que podem ser compartilhadas, atendimento direcionado a pequenos produtores, treinamentos, planos de inserção etc.

Entre os exemplos, destacam-se iniciativas de grandes de frigoríficos que geram enormes impactos, como os Escritórios Verdes da JBS. E há também pequenas iniciativas como o próprio Rally da Pecuária, cuja metodologia tem servido de inspiração para estudos conduzidos em centros de pesquisas e universidades.

Pequenos produtores isolados, assentados, comunidades indígenas e quilombolas estão vulneráveis às realidades do mercado e ao descuido que pode condená-los a passar a eternidade lutando pela sobrevivência.

Essa dicotomia entre as realidades – e não um conflito – não é causada pela indústria do setor e tampouco pelos players mais dinâmicos.

O que diferencia uma realidade da outra é o momento em que a decisão de investir em produtividade foi tomada, a capacidade técnica e a disponibilidade de orçamento para executar essa decisão. A inclusão dos produtores marginalizados é do maior interesse de todas empresas e profissionais relacionados ao agronegócio.

É fundamental compreender que essas realidades também integram o agronegócio. Representantes e lideranças do setor vêm defendendo essa inclusão há décadas. São, na verdade, os críticos do agro que insistem em alimentar um conflito que não corresponde à realidade.  

Vale ressaltar que os poucos conflitos entre produtores e outras comunidades costumam ser consequência de políticas públicas mal planejadas e desastrosas. Frequentemente, esses episódios envolvem oportunistas e grupos de interesse que se beneficiam da perpetuação da vulnerabilidade no campo.

E as soluções que resolveriam os problemas dos produtores mais vulneráveis também não estão na mudança dos sistemas de produção para que se adequem a uma expressão que vem ganhando força no momento: pecuária regenerativa.

É essencial que esse conceito seja compreendido em sua complexidade técnica.

Embora a expressão seja relativamente nova, as técnicas envolvidas estão sendo implementadas há anos nas propriedades brasileiras: plantio direto, manejo adequado de pastagens com retenção de carbono suplantando as emissões, manejo integrado de pragas, doenças e invasoras, integração lavoura e pecuária ou pecuária e floresta, bem-estar animal, melhor desempenho zootécnico, eficiência no uso de insumos, uso crescente de bioinsumos, investimentos em moléculas de menor impacto ambiental, redução das operações mecanizadas, combate ao desperdício de energia, economia circular,  melhoria na qualidade de vida dos envolvidos na produção etc.

Os objetivos presentes nos materiais sobre produção regenerativa coincidem com aqueles já promovidos e adotados pela produção moderna e competitiva. As iniciativas que ainda não foram implementadas enfrentam desafios de viabilidade em termos de escala ou operação. 

Essa realidade da produção brasileira foi construída em razão da necessidade imposta pelas dificuldades do ambiente tropical. Ao se debruçar sobre o tema de produção regenerativa na literatura internacional, os entusiastas estão negligenciando que grande parte do que se propõe, para o clima temperado, já foi implementado aqui no Brasil.

Não somos nós que estamos atrasados; é o resto do mundo.

E é justamente a implementação eficiente de tais técnicas que possibilita a grande diferenciação entre os produtores mais competitivos e aqueles que ainda estão vulneráveis. Não há retorno econômico de longo prazo na produção tropical sem que haja investimento na construção da qualidade do solo. E isso envolve questões físicas, químicas e biológicas.

Do ponto de vista decisório, a melhor alternativa para os produtores mais vulneráveis que, infelizmente, representam essa realidade tão bem descrita por Maurício Bauer, é que consigam seguir os mesmos passos dados pela parcela mais dinâmica da produção. O modelo lucrativo de produção deve ser um exemplo a ser adaptado à realidade desses produtores, e não um modelo a ser evitado ou combatido.

A produção de sucesso no Brasil, seja agrícola, florestal ou pecuária, é alicerçada na ciência especializada.

Há quem diga, sem embasamento algum, que essa ciência precisa ser revista, superada ou substituída. Trata-se de um erro que pode jogar todo esse contingente, que luta por sobrevivência e dignidade, em uma experiência social que pode levá-lo a um desfecho trágico.

O mercado e o agro não se opõem e nem estão em conflito com pequenos produtores de subsistência, quilombos, comunidades indígenas, ribeirinhos etc. Ao contrário, a inclusão desses grupos fortaleceria ainda mais o já dinâmico agro brasileiro.

É preciso focar nas soluções. E, para tanto, o melhor caminho a percorrer é através da ciência especializada.

Texto do Maurício Bauer na íntegra enviado pelo autor. O resumo adaptado foi publicado no Linkedin, dia 03/07/2025

O Sal da Terra e o Peso da Pecuária: Entre o Quilombo e o Mercado

Por Maurício Bauer

No Brasil de 2025, convivemos com dois retratos que, à primeira vista, parecem inconciliáveis — mas que, ao serem observados com sensibilidade, revelam a complexidade e os desafios do futuro sustentável que buscamos. Um deles é a realidade resiliente e marginalizada do Quilombo Boa Vista, no Maranhão; o outro, a pujança econômica da pecuária de corte, que movimentou impressionantes R$ 987 bilhões no último ano. Ambos são reais. Ambos fazem parte do nosso país. E ambos carregam, cada um à sua maneira, as contradições e as possibilidades de um novo caminho.

O Quilombo Invisível: A Esperança de Quem Não Está nas Estatísticas

Marcello Brito nos leva, com palavras carregadas de emoção e crítica social, a um mergulho na vida real do Quilombo Boa Vista. Ali, longe dos fóruns internacionais e dos holofotes urbanos, a conquista de um poço artesiano em 2025 ainda é motivo de festa. Após quase 400 anos de resistência silenciosa, os moradores obtêm finalmente o título de suas terras e uma agroindústria modesta — símbolos de uma justiça atrasada que chega pingando, não em ondas. Esse Brasil invisível é, paradoxalmente, o que mais tem a ensinar. Brito convoca a música “Sal da Terra”, de Beto Guedes, para lembrar que, diante de um planeta em colapso climático, social e ético, o amor, o respeito e a escuta das vozes periféricas são atos revolucionários. A COP30 será no Brasil, mas será que o Brasil estará de fato na COP? Ou apenas os mesmos de sempre — engravatados em Londres, Bonn ou Brasília?

A Pecuária Titânica: Riqueza, Empregos e a Máquina que gira

Do outro lado da moeda, Maurício Palma Nogueira apresenta com orgulho os números do setor pecuário brasileiro. Em 2024, o faturamento foi de quase R$ 1 trilhão. A cadeia produtiva manteve 8,9 milhões de empregos diretos, indiretos e por efeito renda. A indústria frigorífica faturou R$ 252 bilhões, o varejo R$ 294 bilhões, e as fazendas, R$ 207 bilhões. Além disso, estima-se que o setor tenha contribuído com R$ 151 bilhões em impostos.

Nogueira também destaca o papel da pecuária como motor de inclusão econômica em áreas rurais e como geradora de riqueza mesmo diante das críticas, que ele considera enviesadas e ideológicas. Há, de fato, ineficiências — especialmente na pecuária de subsistência — mas também há evolução tecnológica e produtividade crescente.

Conflito ou Complementaridade?

Enquanto o Quilombo Boa Vista celebra o acesso à água e um espaço na economia formal, os dados da pecuária mostram uma estrutura já consolidada e amplamente integrada ao mercado global. De um lado, comunidades tradicionais que resistem com pouco apoio; de outro, uma cadeia agroindustrial com musculatura econômica. Mas será que esses mundos precisam estar em conflito?

É hora de reconhecer que o verdadeiro desafio do Brasil é reconciliar esses dois universos. O futuro não pode ser construído apenas sobre bilhões em circulação — ele precisa incluir quem foi historicamente excluído dessa conta. Da mesma forma, não se pode ignorar a força do setor agropecuário, que sustenta milhões e movimenta a economia. O que falta, portanto, é integração com justiça: uma pecuária regenerativa que inclua quilombolas, indígenas, pequenos produtores e que dialogue com os limites planetários.

O Sal da Terra Está em Todos Nós

O “sal da terra” não está apenas nos líderes de mercado ou nos ativistas do campo. Está nos dados, mas também nos rostos esquecidos. Está nas curvas de crescimento do PIB da carne, mas também nos sorrisos tímidos de quem perfura um poço pela primeira vez. Está em quem produz, em quem resiste e, sobretudo, em quem escuta.

O Brasil que dará certo será aquele que colocar os dois lados da história à mesa. Porque “um mais um é sempre mais que dois”, como diz a canção. E só repartindo melhor o pão — e a terra, a água e o investimento — construiremos um país realmente sustentável.

Maurício é Médico Veterinário e atua como Program Officer da Fundação Moore.

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